Big techs não são boa opção para quem busca renda passiva; entenda os motivos

Parece um contrassenso, mas as maiores pagadoras de dividendos do mundo não são exatamente uma boa opção para ganhar dinheiro com dividendos. Em 2024, Microsoft e Apple lideraram a lista de maiores pagadoras brutas de dividendos no mundo, com US$ 20,4 bilhões e US$ 14,9 bilhões distribuídos, respectivamente. Contudo, as empresas têm muitas ações no mercado e, no final das contas, o dividend yield (DY), que mede o rendimentos dos dividendos, fica bem abaixo da de outras gigantes.
As big techs que pagam dividendos tem rendimento inferior a 1%. Para se ter uma ideia, as maiores pagadoras da bolsa brasileira têm DY de dois dígitos, como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3). Voltando às big techs, a Microsoft é a big tech que tem uma política de dividendos mais robusta. A companhia vem aumentando sua distribuição há 23 anos, religiosamente. Mesmo assim, os números proporcionais são pequenos.
“O yield da Microsoft (MSFT; MSFT34) é o maior entre as big techs, 0,9%, mas não dá para dizer que é um yield elevado”, destaca William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. Já a Apple (AAPL34; AAPL) paga DY de 0,5%. Em 2024, Google e Meta entraram na lista de pagadoras de dividendos, mas a lógica também tem sido de distribuição proporcionalmente pequena.
“Como essas empresas são grandes geradoras de caixa e não conseguem necessariamente investir tudo, existe espaço para eventuais distribuições. Mas, ainda assim, é algo marginal”, reforça o estrategista da Avenue.
Além disso, Castro Alves diz que buscar retornos nas big techs via dividendos pode não ser uma boa escolha, especialmente para o investidor estrangeiro. Isso porque há uma tributação de 30% sobre os proventos, o que derruba consideravelmente a rentabilidade.
Investimentos e impacto nos dividendos das big techs
Outro ponto que pode incidir sobre o pagamento de dividendos das companhias é o aumento dos investimentos em um cenário de acirramento da competição. Maior investimento significa menor disponibilidade de capital para distribuir aos acionistas. A Apple, por exemplo, anunciou investimento de US$ 500 bilhões nos Estados Unidos para aumentar sua capacidade de produção, pesquisa e desenvolvimento.
Nesse sentido, “a empresa ainda tem apetite grande por inovação e expansão. Então, isso pode significar menos espaço para aumentar os dividendos no curto prazo. Mas, uma vez que você começa nesse caminho, de pagamento de dividendos, geralmente você não reverte esse movimento”. A avaliação é de Vinicius Ribeiro, sócio da B.Side International.
Ou seja, tanto para as tradicionais pagadoras, como Apple e Microsoft, e as novas, Meta e Google, manter os pagamentos “indica confiança na administração da empresa e na trajetória futura dos negócios”. Por isso, ele acredita que as empresas devem manter os dividendos e, em alguma medida, aumentá-los.
Líder entre as maiores pagadoras de dividendos do mundo, Microsoft pode avançar
Mesmo com o histórico das big techs, há oportunidades no horizonte para, no futuro, receber dividendos mais robustos. É o caso principalmente da Microsoft, segundo Acilio Marinello, sócio-fundador da Essentia Consulting.
Um fato novo é o anuncio de que, pela primeira vez, uma empresa conseguiu construir um chip estável e de produção escalável para computação quântica depois de quase 20 anos de pesquisa e desenvolvimento.
“Isso pode ser tão ou mais revolucionário que a própria inteligência artificial porque gera uma capacidade de processamento nunca disponível e numa escala muito superior ao que temos hoje”, destaca Marinello.
Ribeiro, da B.Side, também destaca o potencial da companhia e recorda que, recentemente, a Microsoft aumentou em 11% o pagamento de dividendo, que chegou a US$ 0,83 por ação. “A empresa está bem capitalizada, reinvestindo e olhando para maneiras de compensar os acionistas”.
Trump e China
A proximidade das big techs ao governo de Donald Trump pode dar algum impulso às empresas do setor. “A gente já vê membros do governo falando sobre derrubar barreiras que limitam a inovação e alguns movimentos na direção de grandes investimentos, principalmente no setor de inteligência artificial.”
Por outro lado, há riscos no horizonte. “Modelos de IA das empresas chinesas têm se mostrado muito eficientes, e com menor exigência de capital do que as americanas, que têm requerido maior volume de recursos”, rebate Marinello.
Nesse sentido, a guerra comercial que está sendo deflagrada no digital, principalmente entre Estados Unidos e China, pode avançar sobre os números das big techs americanas, segundo o sócio da Essentia.
“Isso tudo pode causar uma retração, com as americanas tentando se proteger desses fatores em discussão que ainda são bastante imprevisíveis. Assim, para evitar mais exposição ao risco, talvez optem por segurar o dinheiro para fazer reinvestimentos ao invés de remunerar os acionistas. É uma situação mais cautelosa”, diz Marinello.
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