Coletânea boa de ler mostra o que pensavam aqueles com ‘o pior emprego do mundo’

Organizado por Ivan Colangelo Salomão, livro traz muito do rigor acadêmico de forma fácil para o leitor

Não é exagero dizer que se trata do pior emprego do mundo, em uma expressão cunhada por Thomas Traumann. Ainda mais dentro do período analisado. O livro ‘Os homens da moeda’, lançado pela Editora Unesp recentemente, tem o desafio de apresentar ao leitor ‘o que pensavam os ministros da Fazenda da Nova República (1985-2028)’, como sugere o subtítulo da obra.

Passou-se de tudo um pouco no Brasil durante o período. Fim da ditadura militar, eleição indireta para presidente, morte do presidente eleito indiretamente, superinflação, hiperinflação, planos econômicos que fracassaram, confisco da poupança, presidente caçando marajás, presidente caçador de marajás sofrendo impeachment, fim da superinflação, fim da hiperinflação, líder sindical eleito presidente da República, um novo impeachment… a lista parece não terminar nunca.

E no meio deste turbilhão estavam homens – e uma mulher – tentando colocar o País nos trilhos econômicos.

Prefaciado por Luiz Carlos Bresser-Pereira, o livro é na verdade o segundo volume de uma trilogia. Ela teve início com ‘Os homens do cofre’, de 2021, que abrange o primeiro século do regime republicano. E terá fim com o período que compreende 1822 e 1889. Este último a ser lançado sob o título ‘Os homens do sonante’.

O pior emprego do mundo
Ouvi o termo ‘pior emprego do mundo’ para designar o trabalho do ministro da Fazenda a partir do livro de Thomas Traumann. Na obra, 14 ministros revelam como tomaram decisões difíceis. Acredito que a obra de Traumann pode ser um excelente complemento para o livro de Salomão. Ele pode ser encontrado no site da editora Planeta.

O livro ‘Os homens da moeda’ é fruto do trabalho de vinte acadêmicos, que se revezam na confecção de 15 capítulos – um para cada ministro da Fazenda do período. São todos homens e apenas uma mulher, Zélia Cardoso de Mello. Fato que não passou despercebido por Ivan Colangelo Salomão. É ele quem assina a obra como organizador – assina também todos os capítulos em parceria com seus colegas.

Zélia Cardoso de Mello e o controverso confisco das poupanças. – Protásio Nene/Estadão Conteúdo – 16/3/1990

Salomão escreve na introdução que de fato há uma “imprecisão histórico-lexicográfica estampada no título do livro”. Diz que entre tantas conquistas, a chamada Nova República contou com a posse da primeira mulher no cargo. “Nesse sentido, a manutenção de ‘os homens’ em sua designação não representa desprezo por esse feito histórico, apenas se curva a um motivo muito mais prosaico: a padronização do epíteto das obras”.

Pelo sim, pelo não, Zélia continua sendo a única mulher a ter liderado a economia do Brasil.

Escrita informal, rigor acadêmico

Obras do tipo, pensadas pela academia, apresentam sempre um risco ao leitor comum. Serem formais demais, acadêmicas em excesso. O que invariavelmente torna a leitura antes de tudo um exercício de paciência. Não é o caso. O texto é em sua maioria easygoing.

Mas isso sem abandonar o rigor acadêmico. Assim, ao fim de cada capítulo há uma referência bibliográfica, daquilo que foi consultado para escrever sobre esse ou aquele ministro, sobre aquela parte específica da história da Fazenda. É prato cheio para quem quer mergulhar ainda mais no assunto. (Dica: faça a leitura com um caderninho do lado e vá anotando os títulos de outras obras que julgar interessante ler no futuro).

Como o especial em áudio realizado pela Inteligência Financeira apenas sobre o Plano Real deixa claro, contar a histórias desses homens – e dessa mulher – é fundamental para compreendermos cada vez mais que um País mais justo socialmente e mais democrático se constrói também a partir da Esplanada dos Ministérios Bloco B, Zona Cívico-Administrativa, Brasília-DF.

Para comprar
Os homens da moeda
Organizado por Ivan Colangelo Salomão
2024 | Editora Unesp
Onde comprar: site da editora

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