Real se recupera com melhora pontual, mas tendência ainda é incerta

Empresas citadas na reportagem:
O real figurou entre as moedas de melhor desempenho na sexta-feira (14), com o aumento do apetite por ativos de risco. Mas ainda é cedo para consolidar uma tendência mais sustentável no câmbio.
Com a decisão de política monetária no Brasil e nos EUA na próxima quarta-feira, além de dúvidas sobre a evolução da atividade e inflação aqui e no exterior e o vaivém na guerra comercial promovida pelo presidente Donald Trump, fica mais difícil para construir cenários de maior alcance para o câmbio.
Na sexta, a baixa de 1% do dólar, que encerrou a R$ 5,7433 após recuar até a mínima de R$ 5,7117, seguiu a depreciação global da moeda americana, mas principalmente frente às divisas de mercados emergentes.
Operadores de câmbio avaliaram que notícias sobre estímulo ao consumo na China ajudaram os preços das commodities em um dia em que a moeda americana já estava mais fraca, levando, assim, essa classe de moedas a se destacar. Na semana o dólar teve queda acumulada de 0,81%.
Real teve força de política e economia
No cenário local, notícias sobre as eleições do ano que vem, que sinalizam para a possibilidade de alternância no poder e mudança na política fiscal, podem ter ajudado marginalmente o câmbio.
Cresceu a avaliação negativa do governo do presidente Lula, conforme mostrou a pesquisa da Ipsos-Ipec — o que poderia abrir margem para uma diferente orientação fiscal no próximo governo.
Na sexta-feira, o preço mais forte das commodities pode ter dado suporte aos ativos brasileiros, em dia em que a bolsa também teve valorização firme (2,64%), com ajuda da apreciação de 3,28% das ações ON da Vale e de 3,08% das ações PN da Petrobras.
O fato de os parlamentares americanos afastarem a chance de um “shutdown” (paralisação da máquina pública) nos EUA deu espaço para um maior apetite de risco, que se somaram às notícias vindas da China de estímulo ao consumo.
Estrangeiro reduz aposta contra o real
No mercado de derivativos, a posição do investidor estrangeiro em dólar continua caindo. Segundo os dados da B3 referentes ao fechamento da última sessão, a posição comprada em dólar contra o real pelo investidor de fora do Brasil caiu para US$ 49,18 bilhões, pela primeira vez abaixo de US$ 50 bilhões desde 2 de agosto de 2023, reduzindo a pressão sobre o real.
Como a queda da posição do estrangeiro não vem sendo acompanhada por um aumento na aposta do investidor local a favor do real, a hipótese levantada por operadores é que não necessariamente há uma melhora na perspectiva para a moeda brasileira, mas possivelmente um desmonte de posições de “hedge”.
Com o recente aumento da Selic (e perspectiva por novas elevações), além de um cupom cambial mais contido devido às rolagens dos leilões de linha pelo Banco Central, arrastar posições compradas em dólar contra o real se tornou mais custoso para os investidores, o que estaria desincentivando esse tipo de proteção para outros investimentos.
Alinhado aos emergentes
Estrategistas do banco americano J.P. Morgan avaliaram, em nota, que a valorização do real neste ano está até aqui alinhada com a de seus pares dos mercados emergentes.
“Um dólar mais fraco com expectativas de moderação do crescimento nos EUA contribuiu para o alívio, juntamente com uma situação local mais tranquila no Brasil, pelo menos no mês passado”, dizem.
“Nesse contexto, os stop-loss [recurso que encerra posições diante de perdas fortes] de investidores que estavam fortemente posicionados no lado pessimista no final de 2024 provavelmente desempenharam um papel significativo na recuperação observada durante os primeiros meses deste ano.”
Real versus guerra comercial
Os estrategistas do J.P. Morgan veem o efeito relativamente limitado ao real da guerra comercial promovida por Trump.
“Não acreditamos que a política comercial dos EUA será um grande movimentador do real no curto prazo”, apontam.
Apesar do recente rali de alívio do real, que, segundo os estrategistas, foi ampliado pelo posicionamento pesado que havia contra o real, ainda é preciso ver mudanças significativas para garantir que a moeda brasileira esteja fora de perigo na frente fiscal.
“A primeira revisão fiscal bimestral (22 de março), bem como a apresentação das diretrizes orçamentárias para 2026 (15 de abril) podem adicionar volatilidade e sugerir que alguma cautela à frente ainda é necessária.”
Mercado de juros
No mercado de juros, a sexta-feira foi de alta modesta nas taxas de diferentes vencimentos. Segundo participantes do mercado, o movimento foi pontual e se deu por razões técnicas, após uma semana de distensão relevante da curva a termo.
Ao longo do dia, apenas os vértices de prazo mais curto apresentaram pouca oscilação, à medida que os investidores relutavam em alterar a perspectiva para a política monetária às vésperas da próxima reunião do Copom.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2026 encerrou estável em relação ao ajuste anterior, a 14,73%; a do DI de janeiro de 2027 subiu de 14,50% a 14,53%; a do DI de janeiro de 2029 oscilou de 14,42% a 14,425%; e a do DI de janeiro de 2031 aumentou de 14,57% para 14,58%.
Estados Unidos
Nos EUA, os mercados de ações tiveram respiro na sexta-feira após o forte “sell-off” das últimas sessões, em meio à escalada de tensões comerciais. Pesquisa mais recente da Universidade de Michigan apontou para mais uma queda no sentimento do consumidor e um aumento significativo nas expectativas de inflação, em linha com a incerteza do mercado quanto à política tarifária de Donald Trump e o impacto que isso pode ter sobre o crescimento econômico.
Em Wall Street, o índice Dow Jones subiu 1,65%, aos 41.488,19 pontos, o S&P 500 teve alta de 2,13%, aos 5.638,94 pontos, e o Nasdaq avançou 2,61%, aos 17.754,086 pontos. Na semana, no entanto, os índices tiveram perdas de 3,07%, 2,27% e 2,43%, respectivamente.
Na visão da High Frequency Economics, os dados sugerem que os gastos dos consumidores podem ser contidos até que a agenda econômica de Trump se torne mais clara. No momento, o crescimento real dos salários tende a sustentar o consumo, mas as pessoas podem adiar compras de alto valor até que haja mais segurança. “A incerteza geralmente fomenta uma sensação nas famílias de que economizar mais é uma boa ideia”, escreve o economista-chefe, Carl Weinberg, e a analista Mary Chen, em nota.
Agora, as atenções do mercado se voltam para como o Federal Reserve (Fed, banco central americano) irá lidar com essa incerteza, que tem pesado sobre o sentimento do mercado, em sua próxima reunião, na semana que vem. O banco central americano também irá divulgar o seu gráfico de pontos com as projeções de cada membro do comitê para as taxas de juros nos próximos meses.
Para o Deutsche Bank, o Fed deve manter as taxas inalteradas, como é amplamente esperado pelo mercado, e, dado o aumento da incerteza, é possível que o banco central americano forneça poucas pistas sobre o caminho da política monetária daqui para a frente. Na visão dos analistas, a atualização do Sumário de Projeções Econômicas (SEP, na sigla em inglês) provavelmente mostrará uma expectativa mediana de duas reduções de juros este ano, inalterada em relação a dezembro. No entanto, eles esperam que, individualmente, cada membro tome uma postura mais cautelosa, após projeções econômicas que indicam uma inflação mais alta, um crescimento um pouco mais fraco e uma previsão inalterada para a taxa de desemprego neste ano. Com isso, há um risco de que a mediana aponte para apenas um corte em 2025.
*Com informações do Valor Econômico
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